Artigo de opinião – Por Janaína Fidelis, psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho
A discussão sobre produtividade e desempenho profissional costuma dominar o debate público. No entanto, um fator decisivo para a saúde mental de milhões de trabalhadoras ainda recebe pouca atenção: a sobrecarga da dupla jornada.
Estudo publicado em 2025 na revista científica Frontiers in Public Health identificou que conflitos entre demandas do trabalho e responsabilidades pessoais impactam diretamente o bem-estar psicológico feminino. Mulheres que acumulam atividades profissionais e tarefas domésticas relataram mais sintomas de ansiedade e dificuldades emocionais relacionadas ao ambiente laboral.
A pesquisa apenas confirma algo que milhões de mulheres já sabem na prática. O expediente não termina quando se fecha o notebook. Ele apenas muda de cenário. Saindo do ambiente corporativo, vem as tarefas domésticas: cuidar da casa, dos filhos, da família, organizar rotinas, administrar conflitos e ainda manter a performance no dia seguinte.
Não se trata apenas de cansaço físico, a sobreposição de papéis gera culpa, ansiedade e a sensação talvez estar deixando a desejar em uma das áreas. Quando o trabalho exige disponibilidade total e o ambiente familiar exige presença integral, a matemática não fecha. E quem paga o preço é a saúde mental. Esse acúmulo de responsabilidades gera um ciclo de tensão permanente.
A romantização da mulher “multitarefa” esconde a ausência da divisão equilibrada de responsabilidades e a rigidez de modelos corporativos que geralmente não consideram a realidade social das trabalhadoras. O resultado coletivo é afastamentos, queda de produtividade e adoecimento psíquico.
Reconhecer o impacto da dupla jornada é passo essencial para o avanço de políticas públicas, práticas empresariais mais flexíveis e uma divisão doméstica mais justa. Discutir saúde mental feminina é uma necessidade social e econômica. Se queremos ambientes de trabalho mais saudáveis e sociedades mais justas, precisamos redistribuir tarefas, rever expectativas e abandonar a ideia de que dar conta de tudo é sinônimo de sucesso.
Nenhuma mulher deveria precisar escolher entre sobreviver profissionalmente e preservar a própria saúde emocional. Quando o sucesso é medido pela capacidade de suportar jornadas exaustivas e silenciar o próprio sofrimento, significa que algo está profundamente errado na estrutura da sociedade. A verdadeira evolução social e econômica vem da construção de ambientes de trabalho mais humanos, corresponsabilidade dentro de casa e valorização do descanso como direito, e não como privilégio.